NOS TEMPOS EM QUE O JORNAL ERA COMPOSTO POR LETRA NO CORPO 8...

FIAPOS DE MEMÓRIA José Milbs

E, às vezes, para dar dor de cabeça no Militar de plantão na redação de "O REBATE", no CORPO 6 em negrito.

José Milbs
Editor-Chefe
Jornal "O Rebate" on line

1967/68 - foi o período mais violento da repressão. "O REBATE" passava por forte censura em todas as suas matérias, jamais ia para as bancas sem o aval de o Comando Militar e, palavras, como CUBA, CHE GUEVARA ou URSS, nem pensar. Era engraçado fazer o comentário sobre a produção de açúcar na América Latina e escrever, ao invés de Cuba, Bolívia ou outra similar ideológica.

Um dia não agüentei mais e fui na primeira página e estampei bem ao estilo anti-governista:

"ESTA EDIÇÃO CIRCULA COM ALGUNS TEXTOS EM BRANCO E OUTROS COM BORRÕES POR FORÇA DA CENSURA IMPOSTA PELO COMANDO DO 1º GA Cos MACAÉ".

Havia censura, mas não se podia falar nela. Não deu outra. O major mandou me prender e, dali para frente "O REBATE" só circulava depois de rigorosa leitura dos capitães Serrat Figueiredo e do próprio Major Monteiro Campos.

O que intrigava o regime era a democracia interna que havia no "O REBATE". Como éramos o único jornal lido no município, a heterogeneidade era latente. Havia um jovem Padre Armindo que escrevia "Can­tinho de Glicério". Seus originais vinham numa mistura de português com espa­nhol que a gente apelidava de "portunhol".

Tinha o Padre Nabais que dava um tom ideológico à Igreja conservadora dos anos 70. Armando Barreto escrevia "Em Tempo de Política'". Cláu­dio Upiano ltagiba com editoriais e filosofia. Fundamos "O DEBATINHO" (registrado em nome de JML Gama e agora, também registrado na internet) onde se falava nas transformações filosóficas da época. Elegemos uma musa. Advinha quem? Tânia Jardim. Era ela a musa inspiradora de toda nossa geração de escribas.

Ainda escreviam: Alan Guerra, Leciono Mello, Osmar Sardenberg, Luiz Pinheiro, Jairo Vasconcelos, Maximiliano Lima (poeta e paginador).

Um dia Armando questionou a honestidade do Padre Armindo numa rifa de "jipe" em Glicério. Estampou em sua matéria: Vi­gário ou Vigarista? Foi o estopim. Padre Armindo, no seu portunhol, caiu de bico em Armando de mentiroso pra baixo fez a festa. Até sua posição evangélica foi questionada.(Armando, que havia iniciado sua existência jornalística no "O REBATE", também tinha uma formação Evangélica). O Titulo da Matéria do Padre Armando: "Resposta a Armando'. Armindo se defendia e dava uma catucadinha irônica na religiosidade do Armando. Volta Armando em réplica: "Resposta a resposta de Padre Armindo".

O caso já estava indo para a tréplica, resposta em cima de resposta quando o Euzébio, com humor, entrou na enrolada. Em sua coluna veio com o título e sua peculiar ironia: Pedia o desarmamento bíblico dos dois. Um era crente batista e o outro pároco católico e propunha paz e ofereceu uma bíblia de presente.

Só que chamou Armindo de Armando e Armando de Padre Armindo. O curioso é que quem fazia a revisão nos textos, que iam para a oficina, no "portunhol" do Padre Armindo era o próprio Armando.

Até hoje não sei que fim levou o Jipe que o Padre "sorteou" para os paroquianos de Glicério, Dizem que saiu para Ele mesmo...

De outra, a briga foi com Luiz Pinheiro e Lecino. Pinheiro tinha a coluna "Chutes nas Traves". Era uma longa coluna onde Pinheiro fazia relato dos jogos. De bater o comer aos 2:30 minutos à saída, para a direita ou esquerda do goleiro Nier ele relatava, um por um. Era duro revisar. Imaginem compor na mão com componidores e no corpo 8. Leciono de Sacanas deixou sair, só que, invés de "Chutes nas Traves", saiu "CHUTES NAS TREVAS". Pinheiro ficou uma arara. Foi contido por Jairo e Marquesinho que assumiram o erro. Tivemos mais algumas semanas de ter que escrever: "Onde se lia Chutes nas Trevas, na edição 2190, página 4, de autoria de Luiz Pinheiro, leia-se Chute nas Traves". Era assim a vida noturna, as madrugadas nas oficinas do velho e valente "O REBATE de 75 anos" que agora está on-line e acessado mundialmente no www.jornalorebate.com e www.jornalorebate.com.br

"O REBATE" , em sua edição semanal de numero 2658, na página das publicações do PODER JUDICIÁRIO, causou um grande reboliço na vida dos Cartórios, Serventuários de Justiça, Advogados e até quase o Juiz. Num edital que tinha que ser publicado por três edições, de uma pendenga de terras que envolvia grilagem, usucapião e mais de 15 herdeiros numa luta que se arrastava por anos e anos, parecia que finalmente as partes tinham chegado a um acordo. A publicação tinha sido feita, audiência marcada e mais de 30 pessoas superlotavam o Fórum da cidade e, quando o martelo do juiz já ia sentenciar à divisória da Pendenga, um engraçadinho cisma de ler os editais e no ligar de DIOGO estava escrito DIGO. O juiz tentou apaziguar os ânimos, alegando erro de IMPRENSA e pedia as dezenas de partes envolvidas que aceitassem o erro. Nada conseguiu. O Edital teve que ser publicado novamente e onde o Tabelião Antonio Otto de Souza Filho tinha escrito Digo no Lugar de Diogo, teve que ser revisto e republicado. Com todas as partes de volta, meses depois foi lido o Edital de "O REBATE" e o texto onde o tabelião escreveu:

"ONDE EU DIGO DIGO EU NÃO DIGO DIGO, EU DIGO DIOGO..."

Eram muito salutares as madrugadas nas oficinas do "O REBATE"...

Carinhos Silva, irmão de Zeil, que ia concertar as máquinas emperradas nas madrugadas.Até hoje, pergunta o que era aquilo. Tudo silêncio.Tudo quieto, de repente entra todo mundo pela porta, sobe escada, uma barulheira dos diabos, tudo sem falar e depois de meia hora, sai tudo andando rápido e somem. Éramos os revisores que íamos para a rua andar nas madrugadas e voltávamos quando o Surdinho já tinha tirado as provas.Carlinhos na entendia nada.

Um outro dia, pela madrugada, no andar de madeira de cima da oficina estávamos, Eu, Cláudio Upiano, Crause Abreu, Ivair ltagiba, Oswaldo Argentino, Luiz Fernando San­tos, Jair Siqueira e, se não me engano Alvinho ou Ruy Borges. Falava-se de tudo. Um dado momento se falou em Pediatria onde alguém citou que um irmão foi ser pediatra contra a vontade do pai. Lá embaixo Alfredo "Surdinho', nosso impressor, tinha ido tomar uma ou fumar um". O fato é que havia silêncio. Alamir o compositor — já muito doido e com as antenas ligadas nas conversas da redação, entra nos papos lá em baixo:

"É doutor, na minha família também tem caso triste igual à família do senhor."

Para espanto de todos o meigo, mas burro Alamir entendeu Pederastia ao invés de Pediatria.

Até hoje, quando o vejo nas ruas, asfaltadas da cidade, ele me olha, já com os olhos operados de uma Catarata, e, sorrindo me pergunta:

"Que porra era aquela, Pinguin, de vocês chegarem todos juntos, no silencio da madrugada, subirem os degraus do jornal e, o Armando gritar: Bacuráu pra mim?"

Respondo sempre:

"Só o Armando, Cláudio Santos, Niltinho Costa, Marquinho Brochado, Frota, Amildes e Amilton podem te dizer o que significa este Bacuráu do Armando. Igual a Apurrinhola do Frota que vou escrever um dia..."

Eram muito salutares e engraçadas as madrugadas nas oficinas do "O REBATE" nos anos 60/70...