Cidades levadas ao caos

Argemiro Pertence Argemiro Pertence

Nossas cidades têm sido levadas ao caos pela ausência total de competência de nossas autoridades em encontrar solução para os congestionamentos diários do trânsito que atormentam milhões de pessoas de norte a sul deste país. É normal um trabalhador perder 5 ou 6 horas diariamente de sua vida nesses absurdos congestionamentos. Isto implica em 30 horas semanais ou 120 horas mensais. Ou seja, 120 horas mensais perdidas e respirando aquele ar tóxico dos congestionamentos de trânsito.

Há, é verdade, uma série de fatores que contribuem para este resultado. O processo se inicia com a propaganda. As campanhas publicitárias parecem dizer ao cidadão comum que não ter um carro equivale a não ter uma perna ou as duas.

A oferta maior de crédito ao consumidor e a redução da carga tributária sobre o preço dos veículos facilitam o acesso de novas fatias da sociedade à compra de veículos. Em vez de governar e tomar decisões, os governos ficam reféns das grandes empresas globais montadoras de carros, já que estas alegam que este processo vai gerar empregos.

Não é bem assim. Ocorre a geração de empregos, é fato, mas cada vez em número menor, já que o processo de montagem é cada vez mais robotizado e descentralizado. Vejam o caso típico de um carro cuja montagem final é feita no Brasil: O motor é fabricado na Coreia do Sul, a suspensão na África do Sul, o conjunto direção-transmissão na Argentina, o sistema de freios no México, a eletrônica na China e a carcaça e o interior do veículo no Brasil.

Assim, essas multinacionais definem onde será fabricada cada parte em função da oferta e do custo de mão-de-obra, priorizando seu interesse e seu ganho.

Esses novos veículos ganham as ruas e torna-se gritante, especialmente nas horas de maior movimento, que eles transportam, em mais de 80% dos casos, apenas o motorista. A falta de transportes coletivos de qualidade e a posse de veículos de uso individual têm levado a opções urbanas direcionadas e improvisadas. Nossas cidades são “rodoviarizadas”, preocupadas apenas em introduzir soluções de curto prazo para a locomoção de veículos privados, Daí vem as vias expressas, os túneis, os viadutos, os elevados e as passarelas, todos concorrendo para encurralar os pedestres e os ciclistas.

Há também a desigualdade social como fator. Os menos aquinhoados também estão ao alcance dessas campanhas de propaganda e se sentem frustrados por não terem condições de ter um carro. Outro aspecto da desigualdade social é que alguns desfavorecidos optam pela violência e pelo tráfico de drogas para alcançarem o nível de consumo focalizado nas campanhas publicitárias.

Do petróleo produzido no mundo, cerca de 70% destina-se a produzir combustíveis para os ineficientes motores de combustão interna empregados nos veículos que rodam por nossas cidades. Neste caso, papel coadjuvante no Brasil tem a Petrobras. A Petrobras alimenta esta frota. Mais ainda: o petróleo produzido pela Petrobras no país não tem condições de gerar o volume de derivados específicos – gasolina e diesel – requeridos para alimentar toda a demanda da frota. Assim, a Petrobras importa de outros mercados as quantidades necessárias para completar o que falta.

Na situação acima descrita, queiramos ou não, a Petrobras tem agido como aquela cozinheira que só sabe preparar frituras e outros alimentos ricos em gorduras saturadas para alimentar uma população já intoxicada pelo mau colesterol e que por isso tem as artérias isquêmicas, cada vez mais obstruídas.

Outro dado negativo deste esquema é a importação de petróleos leves e derivados específicos e, obviamente, a carga que estas operações impõem à balança comercial do país. No atual modelo econômico, esta opção é altamente prejudicial à economia nacional.

A solução para todo este problema passa, evidentemente, pelo não uso de veículos de uso particular em certas áreas, em certos horários e em certos dias da semana. Isto já se faz no mundo inteiro por simples proibição, bloqueio, rodízio, cobrança pedágio, ênfase no transporte solidário e fim de áreas de estacionamento. Estas medidas podem ser todas utilizadas em conjunto ou seletivamente em função de estudos e planejamento competente.

Outra solução de médio prazo é o desestímulo do transporte por ônibus em rotas de longa distância e em certas áreas por sua ineficiência e elevado custo per capita. Algumas das grandes cidades brasileiras podem partir para transportes ferroviários convencionais ou opções mais criativas desta modalidade. Há ainda as soluções fluviais e marítimas, todas muito mais eficientes e de menor custo operacional per capita para algumas de nossas grandes cidades.

A todo este modelo deve-se acrescer a implantação de ciclovias seguras de média e longa distância. Em lugar de campanhas de propaganda para a compra de carros, viriam as campanhas incentivando o uso de bicicletas.

Por fim, viria a implantação de facto de órgãos para o planejamento de cidades nos âmbitos federal, estadual e municipal. Dentre as atribuições destes órgãos estaria prioritariamente a de descentralizar as cidades para desconcentrar a demanda por transporte nas mesmas direções e horários.

Parece-me, entretanto, que nossos políticos não estão à altura de realizar esta tarefa. Está em aberto o caminho para definir quem o realizaria.