Campos: cidade em lugar errado

Quando os Sete Capitães tocaram a Planície dos Goitacás, em 1632, encontraram ainda a paisagem com seus traços originais. Os habitantes nativos praticamente não lhe fizeram nenhuma alteração profunda com sua economia de subsistência. O historiador norte-americano Warren Dean se enganou ao atribuir aos indígenas a devastação da floresta da baixada pelo uso intensivo do fogo. A planície aluvial, excessivamente úmida, não permitia o desenvolvimento de florestas. Só nos poucos pontos mais altos, elas ocorriam. No mais, alastravam-se os campos nativos.
O Rio Paraíba do Sul dominava a paisagem. Pela margem direita, em tempos de estiagem, ele corria em direção ao mar. Ao longo de seu percurso na planície, ele contava com braços alternativos que reduziam sua vazão. O primeiro deles, assim que o rio saía da zona serrana, era o Itereré, que transferia água para o Rio Ururaí. Logo adiante, havia outro extravasor, ainda hoje denominado Rio Cacumanga, que também engordava o Ururaí. Este, por sua vez, desemboca ainda na Lagoa Feia. Mais abaixo, havia o famoso Córrego do Cula, que transportava águas do Paraíba do Sul para a baixada e terminava atrás do cômoro da praia de São Tomé, no grande Banhado da Boa Vista.
A Lagoa Feia, por sua vez, desembocava no mar pelo Rio Iguaçu, formado por braços extravasores da grande lagoa, depois de cruzar o Banhado da Boa Vista. O Paraíba do Sul transferia água para ele por seu último braço auxiliar, por muito tempo denominado Rio Doce ou Água Preta. Deste, partiam as Lagoas de Gruçaí e Iquipari, que abriam naturalmente suas barras em época de cheia. Não se pode pensar no Rio Paraíba do Sul, em seu trecho final, sem a Lagoa Feia. Ambos estão interligados intimamente, constituindo dois subsistemas. Hoje, é certo que existe uma comunicação subterrânea entre ambos.
A margem esquerda do rio, em tempo de estiagem, recebia água excedente das lagoas porque o terreno é pouco mais alto que o da margem direita. O mesmo acontecia na margem esquerda do Rio Muriaé, último afluente do Paraíba do Sul. Lagoas como as da Onça, Lameiro, Boa Vista, Limpa, das Pedras, Cantagalo, Vigário, Taquaruçu, Olaria, do Fogo e Campelo funcionavam como os piscinões de hoje, só que com mais eficiência.
No período das cheias, era natural o transbordamento do rio. Como o terreno entre sua margem direita e a Lagoa Feia é ligeiramente inclinado, as águas transbordantes por esta margem passavam de lagoa em lagoa em direção à Lagoa Feia. Os dois subsistemas passavam, então, a se comunicar também pela superfície. A baixada se transformava num verdadeiro pantanal que não permitia o crescimento de florestas. Havia apenas campos nativos, que tanto entusiasmaram os Sete Capitães, desejosos de lucros fáceis com a criação de gado. Mas eles não perceberam que a água das cheias criava um ambiente impróprio para a agropecuária e para núcleos urbanos.
Por este prisma, toda a zona final da margem direita do Paraíba do Sul seria hoje considerada área de risco. Não se pode dizer o mesmo da margem esquerda, constituída pela formação de tabuleiros e mais alta que a direita. Ali, nas cheias, as lagoas já mencionadas acolhiam as águas do grande rio para devolvê-las na estiagem. O grande problema é que os fortes movimentos marinhos tendiam a vedar as saídas da água continental para o mar. A bem dizer, havia apenas a saída pela foz do Paraíba do Sul e do Iguaçu, bem como pelas barras das Lagoas de Gruçaí e Iquipari. Nas cheias extraordinárias, é de se supor que a foz do Rio Guaxindiba também funcionasse como escoadouro.
Campos sempre enfrentou problemas de cheias. A natureza enviou muitos avisos aos seus moradores e governantes. Para reduzir os riscos sobre a agropecuária e a vida urbana, muito dinheiro público e privado foi investido e continua sendo. Quase sempre, os recursos públicos são mal aplicados. Na baixada, uma grande rede de canais foi construída, e o sistema de escoamento para o mar reduzido apenas ao Paraíba do Sul e ao Canal da Flecha, este segundo também construído.
Desde que o Paraíba do Sul entra na baixada, diques foram construídos em sua margem direita para conter transbordamentos. Terra, pedra e alvenaria foram os materiais usados na sua edificação. Na margem esquerda, os diques não foram tão reforçados. Sucede que o dique dá uma falsa sensação de segurança, levando as atividades econômicas e as habitações a se aproximarem dele. Se houver transbordamento, as águas caem como cascata. Se houver rompimento, elas vertem como enxurrada, como foi possível ver, em janeiro de 2012, com o rompimento de um trecho da BR-356.
Campos é refém de diques, comportas e canais. Para reduzir o risco de enchentes, é preciso reformar todos os instrumentos de contenção de cheias. Sempre que possível, afastar mais os diques das margens para dar espaço ao rio e impedir o uso do solo imediatamente atrás deles. Trata-se de um trabalho multidisciplinar a ser executado pelo Estado do Rio de Janeiro de forma séria e honesta.

Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 12 de fevereiro de 2012

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