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Arthur Soffiati

Qui, 10 de Maio de 2012 13:12 Arthur Soffiati
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Quando perguntamos a um leigo e até mesmo a um estudioso acerca dos problemas que ameaçam a Terra e, consequentemente, a humanidade, a resposta mais rápida aponta para o aquecimento global. Quando muito, para o empobrecimento da biodiversidade. Em 2010, 28 cientistas de renome internacional reuniram-se em Estocolmo, Suécia, para aprimorar o diagnóstico da crise ambiental da atualidade. O resultado foi a identificação de nove ameaças ao planeta.

Antes, porém, os especialistas procuraram compreender o trajeto da humanidade na Terra. Se considerarmos que o mais remoto ancestral nosso é o Sahelanthropus tchadensis, que teria vivido há 7 milhões de anos antes do presente, a aventura do Homo sapiens, após o fim da última glaciação, em torno de 11 mil anos antes do presente, é muito curta. Em números redondos, os hominídeos, inclusive o H. sapiens, viveram 7.089.000 no período que denominamos Paleolítico, enfrentando os constrangimentos impostos pela natureza.

Nos 11 mil anos subsequentes, período conhecido como Holoceno, a humanidade domesticou plantas e animais, criando a agricultura e a pecuária, construiu aldeias e depois cidades, inventou a roda, os métodos de polir a pedra, a cerâmica, os tecidos, a metalurgia, as embarcações de longo alcance e a indústria pesada. Tudo aconteceu muito rapidamente. A natureza, no Holoceno, criou condições ambientais favoráveis para que a humanidade desenvolvesse técnicas e tecnologias visando o domínio dela sobre a natureza, na convicção de que era possível explorá-la em seu benefício sem nenhum preço a pagar.

Mesmo com oscilações climáticas naturais, o Holoceno apresentou um clima relativamente estável para que a humanidade desenvolvesse suas potencialidades. Apenas uma cultura ousou ir longe demais, ultrapassando os limites da natureza. Foi ela a civilização ocidental, que criou o modo de produção capitalista, um sistema que ignora os limites do ambiente e que os transgride por todos os lados com a finalidade de acumular riquezas.

Na sofreguidão de indivíduos e de Estados nacionais se enriquecerem às custas da natureza e dos pobres, o capitalismo (e por que não também o socialismo?) violentou os limites dos sistemas e processos naturais imprescindíveis à vida na Terra. O resultado foi a construção de uma época geológica, que vem sendo denominada de Antropoceno. Vale dizer, dentro do Holoceno, a ação coletiva do ser humano após a revolução industrial criou uma nova realidade geológica a partir da revolução industrial. Da minha parte, identifico as origens do Antropoceno no fim do século XV, com a expansão marítima da Europa.

Segundo os cientistas, as nove marcas do Antropoceno são:

1- Mudanças climáticas. Geradas pela emissão de gases do efeito estufa, notadamente o CO2, o aquecimento global está provocando uma rápida mudança no clima do Holoceno, o que compromete as conquistas do mundo ocidental e ocidentalizado, tais como agricultura, pecuária e urbanização.

2- Esgarçamento da camada de ozônio. Governos e empresários se vangloriaram por terem os Estados e as indústrias revertido o processo de desgaste da camada de ozônio por meio de novas técnicas e tecnologias. Este sucesso não resolveu de todo processo de corrosão da camada de ozônio, escudo fundamental para a continuidade das formas de vida mais complexas no planeta.

3- Acidificação dos oceanos. Mais que as florestas, os oceanos cumprem o papel ecológico de absorver o dióxido de carbono existente na atmosfera e produzir oxigênio. Mas tudo tem limite. Muito gás carbônico e muita absorção dele pelos mares levam à acidificação dos oceanos e à destruição de ecossistemas fundamentais, como os bancos de corais e os animais com carapaça, por exemplo.

4- Água doce. Se o planeta é recoberto por água, muito pouco dela é doce, fundamental à agricultura, à pecuária e à humanidade. A água doce está sendo desperdiçada ou usada para o lucro.

5- Biodiversidade. A noção que os ignaros têm da biodiversidade é que os que a defendem gostam de plantinhas e bichinhos. Acontece que a biodiversidade garante o equilíbrio dos processos biológicos essenciais do planeta.

6- Ciclos do nitrogênio e do fósforo. No Antropoceno, o processamento de nitrogênio e fósforo é muito maior que aquele feito pela natureza, aumentando, assim, os processos de eutrofização das águas doces e salgadas.

7- Uso da terra. A conversão de metade das florestas, principalmente tropicais, em lavouras e pastagens, quebra a capacidade do planeta em exercer suas funções vitais de equilíbrio.

8- Carga de partículas na atmosfera. Atualmente, o lançamento de partículas na atmosfera dobrou desde a revolução industrial. Elas são extremamente nocivas à vida.

9- Poluição química. Cerca de 100.000 diferentes compostos químicos produzidos pelo sistema industrial está sendo aplicado em todo o mundo atualmente, o que vai afetar os seres vivos e a humanidade.
 
Qui, 10 de Maio de 2012 13:08 Arthur Soffiati
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Mesmo entre muitas espécies animais, existe a demarcação de território. Não somente para uma população da mesma espécie, mas por um indivíduo apenas, comumente um macho. É certo que, entre os macacos, sucede o mesmo fenômeno. A transgressão dos limites territoriais implica em conflito entre os ocupantes do território e os invasores. Por ilação, supõe-se que os hominídeos pré-sapiens tivessem igual comportamento.

Entre os grupos sapiens do paleolítico superior, a demarcação territorial era nítida. Não havia leis escritas acerca de direitos sobre o território, mas eles eram observados tacitamente. A antropologia mostra que, entre os povos arcaicos, a delimitação de um território geralmente coincide com os limites de uma cultura, ou seja, pela língua falada, pela cultura imaterial e material. As transgressões também podem resultar em guerras.

Contudo, ao lado da defesa de um território, existem as relações inter-territoriais e inter-culturais. As culturas fazem intercâmbios imateriais e materiais. Há as conquistas, impondo ao vencido os valores do vencedor. Há recalcitrâncias, levando os vencidos e conquistados a reagir. Vários foram os movimentos de contra-aculturação, como os do Taqui Ongo e de Tupac Amaru, na América.

As demarcações territoriais costumam ser espontâneas e consuetudinárias. Na Europa Ocidental, a partir do século XV, elas passam a ser justificadas por teóricos e doutrinadores. O primeiro grande doutrinador da delimitação soberana, no ocidente, foi Jean Bodin, no século XVI. Em "Os seis livros da república", ele defende a soberania externa e interna. A externa é o direito que cada povo tem de demarcar o território de um Estado e torná-lo soberano em relação aos outros. Ou seja, a soberania não reconhece nenhum poder acima de si a não ser o de Deus. Quanto à soberania interna, prevalece o mesmo princípio: existe um soberano que não reconhece nenhum poder abaixo dele. Acima dele, apenas Deus. Bodin é, portanto, o grande teórico da soberania nacional e do direito divino do monarca. Os reis não devem obediência à população que vive no Estado por ele governado, pois seu poder emana de Deus. A soberania do Estado justifica as guerras de conquista e o domínio sobre os mares.

Claro que houve contestações ao princípio da soberania nacional. O jurista holandês Hugo de Grócio defendeu o direito de soberania dos pequenos Estados, mas a liberação dos mares. Fazia sentido: quando a Holanda começou sua expansão marítima, Portugal e Espanha já haviam dividido os mares pelo Tratado de Tordesilhas, que França e Inglaterra contestaram.

No plano interno, a soberania do monarca passou por um processo de deslizamento até chegar ao poder soberano do povo, com Rousseau. No entanto, a concepção de soberania nacional consolidou-se e fortaleceu-se no século XIX. Segundo ela, cada Estado tem o direito de instituir suas próprias leis, sem reconhecer leis maiores, e usar os bens do seu território como lhe aprouver. A soberania foi estendida ao mar territorial e ao espaço aéreo.

Depois das duas Guerras Mundiais, percebeu-se a necessidade impor limites à soberania nacional. A Liga das Nações, criada após a Primeira Guerra Mundial, pretendia ser um fórum de entendimento entre os Estados nacionais. Faliu. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, foi criada a Organização das Nações Unidas, também como órgão supranacional. Ela vingou, mas é muito fraca ante os interesses nacionais.

Com a expansão do processo de globalização, a soberania nacional perdeu força, mas continua sendo invocada pela direita e pela esquerda, tanto para o bem quanto para o mal do planeta e da humanidade. Os órgãos supranacionais, como ONU, União Europeia e Organização dos Estados Americanos, mostram-se enfraquecidos diante da soberania nacional. No entanto, a economia mundializada burla os limites territoriais e saqueia os bens nacionais. As empresas transnacionais são peritas em desrespeitar a soberania nacional.

Se o individualismo liberal é apontado como o grande responsável pela crise ambiental planetária da atualidade, a competição entre Estados nacionais soberanos deu também uma grande contribuição para ela, pois se comportam como indivíduos coletivos. Eles se expandiram para além dos limites naturais e se tornaram insustentáveis. Porém, nenhum deles quer abrir mão de suas prerrogativas, a menos que todos o façam ao mesmo tempo.

Sua expectativa de vida ainda parece longa. Só vislumbro duas saídas para sua permanência. A primeira é exercer a soberania para cumprir o que é bom para o planeta e para a humanidade dentro de suas fronteiras. Exemplo: o Estado soberano brasileiro não permitirá a destruição da Amazônia e conclamará os Estados vizinhos a acompanhá-lo. A segunda é não reconhecer a soberania quando o Estado a estiver usando para o mal. Exemplo: a Síria viola os direitos do ser humano, portanto não deve ter sua soberania reconhecida.
 
Qui, 10 de Maio de 2012 13:08 Arthur Soffiati
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Ruído, neste artigo, não significa interferência em uma mensagem, como define a teoria da informação. Significa barulho mesmo. Desde seus primórdios, a civilização ocidental é barulhenta. Primeiro, com o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo, três religiões altamente ruidosas em termos de dogmas e militância.

Depois, com seus sistemas filosóficos, de certa forma herdeiros da tradição judaico-cristã. Descartes, Hegel, Kant, Marx se apropriaram da intolerância religiosa e da concepção teleológica, sequiosos de impor sua verdade às outras culturas do planeta, sob alegação de que falavam a verdade única e absoluta. Os judeus, angustiadamente, não deixam que esqueçamos o holocausto, na verdade, o genocídio perpetrado pelo nazismo nos campos de concentração. Mas não consideram genocídio o que foi praticado contra os nativos da América, contra os negros africanos e contra vários outros povos. Eles próprios massacram palestinos sem considerar tal ato como genocídio. O governo republicano turco da atualidade se nega a reconhecer que o império otomano massacrou armênios.

Tudo isto é ruído, é barulho. Mas devemos estender mais a validade do conceito. O ocidente vem inundando o mundo com ruídos. O barulho começa nas nossas casas, com o rádio, a televisão, a máquina de lavar roupa, o aparelho de ar condicionado, a falação das pessoas, o volume de voz. Nas fábricas, as máquinas são ruidosas e causam surdez progressiva.

Nas ruas, o ronco dos motores de automóveis, as buzinas, as motocicletas, as sirenes de ambulâncias, de carros de polícia e de bombeiros produzem poluição sonora. E os aparelhos de som instalados nos automóveis? São abomináveis, sobretudo quando circulam de madrugada.

As construções, com seus bate-estacas, com suas serras, com suas ferramentas contribuem sobremaneira para elevar o nível dos ruídos. Nos aeroportos e nos ares, o ruído corre solto. Nos mares, a grande circulação de navios perturba o ambiente e afugenta os animais. Na agropecuária, as dragas, os tratores, as ceifadeiras mudam as condições sonoras do campo.

Nas florestas que ainda restam, a motosserra, o trator, os tiros de armas de fogo não apenas matam como também enchem o ambiente de barulho. Não há mais lugar no mundo em que reine o silêncio. Não sem razão, o cacique Seattle reclamou das mulheres faladeiras ocidentais em sua carta ao presidente norte-americano John Peirce. O silêncio era cultuado nas culturas não-ocidentais. Gandhi escolheu um dia da semana para fazer voto de silêncio.

O ruído foi crescendo no ocidente a partir da revolução industrial. Os decibéis foram subindo e criando um mundo insuportável. As cidades do tipo ocidental representam o ponto alto da civilização do ruído. Elas estão espalhadas por todos os continentes, já que o modo de vida ocidental foi imposto a eles.

É fácil registrar a poluição luminosa em fotos e filmes. Analisando a imagem da terra durante a noite, verificamos o excesso de luz nos Estados Unidos, na Europa Ocidental, na costa do Brasil, na Índia, na China e no Japão. Imaginem o desperdício de energia para iluminar as cidades ocidentais e ocidentalizadas. Imaginem os danos que a luminosidade excessiva causa às pessoas e aos seres vivos. Não temos uma foto do planeta registrando os ruídos, mas podemos supor que as áreas mais iluminadas da Terra são também as mais barulhentas.

Até nas artes os ruídos entraram. O que chamamos de música de vanguarda se apropriou dos ruídos como um componente normal da civilização ocidental. Na música popular, os bailes funk são espetáculos de ruído. Aos poucos, vamos nos acostumando à esfera do ruído, assim como consideramos normal a atmosfera. Respirar ar puro faz bem à saúde tal como o silêncio. Quando vou ao Rio de Janeiro e a São Paulo, sinto ardência nos olhos e na garganta causada pela poluição do ar. Quando saiu de um grande ou médio centro urbano e entro no campo, os resquícios do ruído ficam zoando nos ouvidos por algum tempo.

O mundo tem sons naturais saudáveis, como o marulho das ondas, o rumor das águas dos rios, o farfalhar das folhas tangidas pelo vento, o canto das aves etc. Esses sons fazem bem ao nosso corpo e ao nosso espírito. Os ruídos que nós geramos causam surdez progressiva, irritação e estresse.

Com todas as campanhas em prol de um planeta mais saudável, parece que em breve estaremos envoltos numa capa de ruídos. Criaremos uma ruidosfera.
 
Qui, 10 de Maio de 2012 13:02 Arthur Soffiati
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Da pequena família dos hominídeos, todas as espécies se extinguiram. Só o Homo sapiens restou. Nossos antepassados não nos deixaram nenhum relato escrito porque nenhum inventou um sistema de escrita. Assim, os cientistas usam ossos, ferramentas, esculturas e pinturas para reconstituir a história dos hominídeos, que reúnem cerca de vinte espécies. Os estudos estão sempre em efervescência e revelam novidades.

As três mais recentes são:

1- Como explicar o bipedalismo? Parece óbvia a resposta para esta pergunta. Andamos sobre duas pernas porque andamos. No entanto, não se encontrou ainda uma explicação satisfatória. A hipótese mais aceita é a de que um grupo de primatas foi obrigado a descer das árvores para buscar alimento na savana. Uma grande seca teria encolhido as florestas e ampliado as savanas. A população de tais primatas se tornou grande em relação à oferta de alimentos. Aumentaram as tensões entre eles. Muitos morreram. Outros foram para as savanas atrás de comida. No novo ambiente, era preciso adotar a posição ereta para espreitar a presa e para vigiar o predador.

Outra hipótese defende que alguns primatas conseguem se locomover no solo, embora vivam nas árvores. Assim, os que desceram já conseguiam caminhar sobre duas pernas. Daí em diante, foi só uma questão de adaptação. Aventou-se também que a marcha bípede se impôs por economia energética. Gorilas e chimpanzés não conseguem fazer longas caminhadas usando as pernas e tendo o corpo peludo. Pensou-se ainda que a locomoção eficiente na savana exige a liberação das mãos para carregar objetos, alimentos e filhotes. Até a necessidade de colher frutos em árvores foi invocada para explicar a postura ereta. Mais recentemente, Graeme Ruxton e David Wilkinson, dois cientistas britânicos, rejeitaram as explicações correntes, mas também não propuseram outra. Eles apenas observam que a postura bípede exige um corpo com poucos pelos. Para eles, é importante observar que os piolhos que parasitam os pelos pubianos (Pthirus pubis) apareceram há três milhões de anos. Assim, a postura ereta deve datar desse tempo.

2- Hominídeo estranho. Um cientista etíope e outro norte-americano toparam, recentemente, com oito ossos do pé direito de um hominídeo, revelando que o dedão não se alinha com os outros dedos, permitindo caminhadas de longo alcance. Este achado não seria de se estranhar, pois o Ardipithecus ramidus também apresenta este traço anatômico e é considerado hominídeo. Só que o A. ramidus data de 4,4 milhões de anos, enquanto que o novo hominídeo viveu há 3,5 milhões de anos. É contemporâneo, portanto, do Australopithecus afarensis, cujos pés já estavam irreversivelmente adaptados à marcha. Aguardemos mais explicações. Afinal, há cientistas que suspeitam ser o A. ramidus mais ligado ao gorila do que aos hominídeos. Por ora, o novo achado pode apontar para um hominídeo sobrevivente de tempos passados ou para uma espécie não-hominídea.

3- Hominídeos pré-sapiens fora da África. Tinha-se por certo que todos os hominídeos nasceram na África. O primeiro a colonizar outros continentes foi o Homo erectus, há cerca de um milhão de anos. Depois, foi a vez do Homo neanderthalensis. Por fim, o Homo sapiens teria exterminado todas as outras espécies anteriores, na África e fora dela. Atualmente, parece que o processo não foi bem assim. A ponta do dedo mínimo de uma menina e do molar de um jovem adulto que viveram há 40 mil anos na Sibéria passaram pelo sequenciamento genético e revelaram uma nova espécie de Homo, que está sendo chamada de denisovano. Ele teria cruzado com o sapiens, assim como aconteceu entre sapiens e neandertal. Restos de um terceiro grupo de Homo foram encontrados na ilha de Flores, Indonésia, batizado de Homo floresiensis. Esta espécie desapareceu há 17 mil anos e não se sabe ainda se cruzou com o sapiens. Mas a história não termina aqui.

Nova espécie foi encontrada no sul da China e ainda não batizada. Ela teria desaparecido há apenas 11 mil anos. Os estudiosos acreditavam que, nessa época, o sapiens já dominava absoluto todos os continentes. Como ainda não houve o sequenciamento genético da possível nova espécie, não se sabe se o sapiens miscigenou-se com ele.

Algumas conclusões, sempre provisórias, impõem-se, no momento:

1- O que distingue radicalmente os hominídeos dos seus primos orangotango, gorila, chimpanzé e bonobo é a postura ereta e o pé adaptado à marcha, mesmo que algumas espécies não tenham passado completamente por esta mudança.

2- Não se tem ainda uma explicação sólida para a adoção da postura ereta.

3- Não se tem mais certeza de que todas as espécies hominídeas nasceram na África. O Homo erectus e o Homo neanderthalensis podem ter dado origem a outras espécies fora da África.

4- É certo que o Homo sapiens, ao sair da África, cruzou com o neandertal e com o denisovano, talvez até com o grupo encontrado no sul da China.

5- Assim, portanto, somos uma espécie mestiça. Tais conhecimentos deveriam ser transmitidos em todos os níveis de ensino, inclusive no universitário. Trata-se de uma poderosa arma para combater o racismo.
 
Qui, 10 de Maio de 2012 12:53 Arthur Soffiati
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Nos meus 40 anos de magistério, sempre encontrei dificuldades em tratar do evolucionismo biológico. Mesmo em cursos superiores, o tema causa desagrado aos alunos. Por 25 anos, dei aula no curso de Serviço Social da Universidade Federal Fluminense, em Campos. Nele, predomina um corpo discente formado majoritariamente por alunas cristãs católicas, evangélicas, pentecostais, para-evangélicas e espíritas.

Curioso que as alunas de Serviço Social não enfrentem problemas com o pensamento de Marx. Inclusive, muitas se identificam com o socialismo, talvez por conta dos "Atos dos Apóstolos". No entanto, quando eu abordava o evolucionismo biológico, invariavelmente alguém perguntava com indignação: "Você está querendo dizer que o homem veio do macaco?". Era preciso deixar bem claro, em primeiro lugar, que eu não queria doutrinar ninguém. Em segundo, que a teoria sintética da evolução explica que o ser humano, o orangotango, o gorila, o chimpanzé e o bonobo têm um ancestral comum. No final, eu já respondia que não somos descendentes dos macacos, mas uma espécie de macaco.

As evidências são grandes quanto ao nosso parentesco com as quatro espécies primatas. Do ponto de vista anatômico, nós e eles temos dois braços, duas pernas e duas mãos capazes de segurar.

Fundamentalmente, a diferença está nos pés, pois, nas quatro espécies de macaco, eles conservaram a capacidade preênsil. Nos hominídeos, família da qual fazemos parte, o dedão do pé (chamado de hálux pelos cientistas) foi se alinhando paralelamente aos demais dedos e se adaptando à marcha. Mesmo assim, se necessário, o pé humano pode voltar à preensibilidade.

Do ponto de vista fisiológico, as fêmeas das quatro espécies de macacos costumam gerar apenas um filhote de cada vez e amamentá-lo em duas mamas, como fazem as fêmeas humanas. Pelo prisma neurológico, esses macacos apresentam invulgar inteligência. Em termos de comportamento (etologia), não apenas as quatro espécies, mas quase todas as espécies de macaco se organizam em sociedade, com chefia e hierarquia. Várias delas também demonstram a capacidade de produzir inventos para viver, como é o caso do macaco prego e do macaco japonês.

Faltava uma prova irrefutável: a constituição genética dos quatro grandes macacos e do ser humano. Pois agora não falta mais. O sequenciamento completo do DNA do gorila, reunindo 20 laboratórios, mostrou que este primata compartilha com o ser humano ("Homo sapiens"), 97% de seu DNA. Já sabíamos que o ser humano compartilha com o orangotango 96% do seu DNA, enquanto o chimpanzé tem 99% do DNA similar ao nosso. Embora os humanos estejam mais próximos do chimpanzé, o nosso DNA se parece mais com o do gorila em 15%. A intenção das pesquisas não é provar que nós e os quatro grandes macacos estamos nivelados, mas demonstrar as ligações intrínsecas que temos com eles e explicar como a diferença de 4%, 3% e 1% gera espécies aparentadas com comportamentos tão distintos. Certo que orangotango, gorila e chimpanzé podem adotar atitudes profundamente agressivas, mas nenhum deles é capaz de produzir guerras tão violentas quanto à

Segunda Guerra Mundial, a guerra do Vietnã e as guerras do Afeganistão e do Iraque. Orangotango, gorila e chimpanzé podem se revelar dóceis, inteligentes e sensíveis, mas não conseguem escrever livros e compor sinfonias.

Como judaístas, cristãos e muçulmanos, as três grandes religiões monoteístas e bíblicas, podem lidar com esta evidência? Não parece difícil em termos teológicos. Alguns teólogos aceitam perfeitamente o evolucionismo e as relações do ser humano não somente com os quatro grandes macacos, mas com todos os seres vivos. O livro do "Gênesis" usa linguagem metafórica. Não havia, no tempo em que foi escrito, revelações científicas encontradas segundo as linhas de investigação propostas por Darwin. Os livros sagrados das três religiões falam de metafísica e de ética, não de ciência. Podemos muito bem conciliar religião e ciência, pois, se, para Deus, não foi impossível criar homem e mulher do barro por que seria impossível criar a vida e permitir que ela caminhasse com suas próprias pernas, gerando o ser humano?

Da minha parte, que me lembre, desde adolescente, alegra-me saber que tenho ancestrais próximos representados por todos os hominídeos; que faço parte de uma grande família constituída por todos os macacos; que integro uma grande humanidade formada por todos os seres vivos. Não vejo necessidade em considerar apenas os grandes macacos como sujeitos de Direito. Entendo que toda a natureza é sujeito de Direito e que merece nosso respeito e nossa proteção.
 

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