Johanesburgo, 07/10/2008 – Para a insegurança alimentar que sofre a África, a
biotecnologia oferece uma solução: os transgênicos. Mas, os ambientalistas não
concordam e alertam sobre novos perigos. Uma junta de apelações na África do Sul
rejeitou a oposição das autoridades provinciais aos transgênicos e permitiu a
realização de experiências genéticas com o sorgo, conhecido como "super sorgo"
nas invernadas de Pretoria. Dessa forma, o Conselho de Pesquisa Industrial e
Científica (CSIR), apoiado pelo Ministério da Agricultura e de Assuntos
Agrários, obteve em uma segunda tentativa autorização para realizar testes
genéticos, após se comprometer a respeitar a normas de biosegurança em seus
laboratórios.
Esta manipulação implica identificar o código genético de
plantas ou animais e eliminá-los ou mudá-los para criar variedades com as
características desejadas. Por biosegurança se entende a transferência, o manejo
e uso seguro de todo organismo modificado produto da biotecnologia. A batalha
entre partidários e opositores dos transgênicos, que prometem maior produção,
mais resistência às pragas e adaptabilidade à mudança climática, se acentuará se
a decisão se estender das invernadas para o campo.
Cientistas e
especialistas em biotecnologia comemoram a decisão de permitir ao CSIR
desenvolver o super sorgo sob o projeto "Sorgo Africano Enriquecido" (ABS), que
recebeu US$ 16,9 milhões da Fundação Bill e Melinda Gates. O objetivo do projeto
é "criar sorgo de qualidade melhorada, enriquecido com aminoácidos essenciais e
depois aumentar seu conteúdo em vitaminas importantes" como as A e E. Os
aminoácidos essenciais são os que o organismo humano não pode sintetizar e devem
ser ingeridos. "Este processo prova que a legislação é sólida na África do Sul",
disse o diretor-executivo do CSIR, Gatsha Mazithulela. "Respeitamos o fato de os
políticos terem a obrigação de garantir a segurança e de que o rigor das
pesquisas fazem parte do processo. Continuaremos trabalhando no projeto em nossa
invernada de biosegurança de nível três", afirmou.
Os partidários dos
transgênicos argumentam que, embora o sorgo seja um dos poucos cultivos que
crescem bem em zonas áridas da África, possui poucos nutrientes e poucas
proteínas fáceis de assimilar, falhas que a biotecnologia pode melhorar. Por
outro lado, os opositores dizem que os agricultores africanos tradicionalmente
fermentaram o sorgo para facilitar a absorção de seus nutrientes essenciais.
Além disso, desenvolveram suas próprias variedades, com muita lisina (um dos
aminoácidos essenciais), que plantam quando é necessário. Eles temem que seus
cultivos possam ser contaminados com o sorgo transgênico.
O CSIR e seu
sócio apóiam a biosegurança, disse Mazithulela. Estão tomando medidas adicionais
para demonstrar aos órgãos controladores e ao público que seu trabalho é ético,
conforme os mais altos níveis de segurança. "O consórcio já começou a investigar
alguns assuntos fundamentais da composição genética do sorgo como forma de
contribuir com o conhecimento", explicou. "Os avanços ficarão documentados em
resenhas científicas, e a organização manterá informado dos acontecimentos o
painel assessor do ministério", ressaltou Mazithulela.
O Centro Africano
para a Biosegurança, que foi contra a solicitação do CSIR em 2006, condenou a
decisão e alertou que a experiência resultará na inevitável contaminação do
tradicional e apreciado sorgo africano. "Os riscos apresentados pelo sorgo
transgênico para as espécies naturais não podem ser tolerados, e esta
autorização equivale a uma licença para contaminar o patrimônio africano", disse
a pesquisadora da ACB, Haidee Swanby. "Objetamos a solicitação inicial e nosso
governo a rechaçou. O CSIR apelou da decisão e ganhou. Acabou",
acrescentou.
O sorgo é o principal alimento para mais de cem milhões de
agricultores da região da África subsaariana, segundo Pantancheru, Instituto
Internacional de Pesquisa de Cultivos para Zonas Semi-áridas, uma organização
indiana dedicada a estudar as necessidades dos pobres. A ACB afirma que o
projeto ABS tem fins comerciais e que logo o CSIR tentará conseguir autorização
para realizar testes em campos abertos. "É um acordo fechado", disse Swanby à
IPS. "Esta permissão é para experimentar em um ambiente restrito. A próxima
solicitação que apresentarem será para testes a céu aberto e vamos combatê-la
com força", ressaltou.
Uma pesquisa deste ano, patrocinada pela
Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) concluiu
que ajudar a agricultura ecológica e modificar as políticas comerciais injustas
é uma alternativa melhor para garantir a segurança alimentar do que recorrer aos
transgênicos. O estudo foi aceito por 58 países, incluindo a África. Mais de 400
contribuintes participaram da Avaliação Internacional do Conhecimento da Ciência
e da Tecnologia no Desenvolvimento Agrícola (IAASTD), um processo
intergovernamental.
Este estudo internacional, apresentado no mês
passado, recopilou durante quatro anos os pontos de vista de cientistas,
governos e sociedade civil sobre os problemas e o futuro da agricultura e contou
com o patrocínio de várias agências da Organização das Nações Unidas. "Não cabe
ao governo sul-africano decidir pelo resto da África sobre um projeto industrial
que pode causar a inevitável contaminação da incrível diversidade genética do
sorgo", disse Elfrieda Pschorn-Strauss, da Grain África, uma organização a favor
da gestão sustentável e uma agricultura biodiversa. "Esse cultivo é desenvolvido
e cuidado pelos agricultores há mais de cinco mil anos", afirmou.
O uso
da biotecnologia moderna, especialmente a empregada na agricultura, a tecnologia
de alimentação e a medicina permitem garantir a segurança alimentar na África,
afirmou o especialista Wynand van der Walt. Os opositores aos transgênicos não
podem provar que representam uma ameaça para a saúde e a produtividade de outros
cultivos. Os transgênicos são consumidos por mais de três bilhões de pessoas nos
cinco continentes, segundo Walt, e não há casos confirmados indicando suas
conseqüências negativas sobre a saúde ou o meio ambiente.
Por outro lado,
permitiram a redução substancial do uso de fertilizantes, aproximadamente 290
mil toneladas, para bem dos humanos e do meio ambiente. "Há carestia de
alimentos", destacou Walt. "Não podemos esperar discussões políticas de longo
prazo. A urgência é agora, e temos a obrigação de dar explicação e responder à
contra-informação existente em matéria de transgênicos", afirmou.
(IPS/Envolverde)
(Envolverde/IPS)
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