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Quando
o insuportável Coelho Branco, titubeante, disse não saber mais como
começar seu depoimento, o Rei de Copas aconselhou: “Comece pelo começo,
em seguida prossiga até o fim, e então pare”. O conselho, proferido num
momento crítico de “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll,
cabe como uma luva na cara dos brasileiros, em especial, como um tapa
na cara dos baianos. E agora mais do que nunca, assumindo um voto de
protesto, nós vamos nos debruçar sobre o governo da Bahia que, sob
pretexto de uma organização transparente está sucateando todos os
segmentos culturais e educacionais do Estado numa prova de que governo
mercenário e déspota tem que estar a serviço da alienação como rito de
passagem regulatório para o purgatório e para a pulverização dos
recursos destinados a cultura.
Não bastante, para completar os desmandos, a saúde pública da Bahia
também está a ser pisoteada e sucateada pela sola do governador Jacques
Wagner & cia. O PT revanchista – não sabe começar nada direito,
perde-se no meio e, dificilmente, como mostra o sistemático
emperramento da máquina de apurar escândalos, não adapta o que deu
certo nos governos anteriores – é um sucateador com suas bandeiras
vermelhas de estrelinhas brancas, com um discurso populista feito
para as minorias, aliás, elas, vítimas da raiz utilitária dos porões do
PT desaba na armadilha e vota nestes demagogos com incapacidade de
concluir um discurso coerente. No hospital Martagão Gesteira, por
exemplo, crianças são operadas em mutirões e sem qualquer evento de
preparação coletiva, enquanto nas escolas públicas professores
continuam recebendo salários medíocres, mesmo depois de uma recente
greve que não deu em nada, além da comprovação absoluta da falta de
gerenciamento dos órgãos competentes e da incapacidade dos próprios
professores em assumir uma postura mais eficaz, como em outras vezes
foi assumida por outras classes de trabalhadores, como as dos
rodoviários ou dos militares.
Porém, na apresentação do livro “Contos Perversos” ** – que eu
organizei no ano passado – escrevi que “é preciso arrancar poesias dos
escombros”, principalmente na eterna tristeza abissal em trincheiras
sem discursos que andam fazendo com a cultura brasileira nesse país de
faz-de-conta. Semana passada, por exemplo, o anúncio do fechamento do
Theatro XVIII, no Pelourinho – Salvador, causou tristeza entre os
assíduos freqüentadores, atores, técnica, produtores, diretores
teatrais e todos os extratos sociais da Bahia. O espaço democrático
transbordante de arte, de preços acessíveis (R$ 4,00) e espetáculos de
qualidade, exposições, cursos para a comunidade e vários outros
projetos suspendeu as atividades por falta de verbas para custear suas
próprias despesas de funcionamento, e tudo porque o repasse via
Secretaria de Cultura (Secult) foi suspenso desde fevereiro deste ano e
ainda não foi renovado, em razão de “pendências relativas à prestação
de contas”.
Quando Aninha Franco (uma das diretoras do teatro) escreveu sobre o
atual secretário de Cultura do Estado, Marcio Meirelles, num texto de
apresentação d o espetáculo “A Casa de Minha Alma” que ele foi “a
primeira pessoa que ela olhou dentro, e viu histórias, sensações e
sentimentos”, mal podia imaginar que a página da amizade estaria
rasgada, pois o mesmo Meirelles de ontem seria o Meirelles de agora,
com exigências e chicotes nas mãos.
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“Nós
provamos que o dinheiro entrou na conta, mas eles querem que nós
devolvamos os R$ 20 mil da captação”, afirmou a dramaturga e uma das
diretoras do XVIII, Aninha Franco. Na foto ao lado, a diretora com o
atual secretário da Cultura do Estado, Marcio Meirelles, num tempo onde
amizade valia muito mais do que chicotes nas mãos e holofotes na mídia.
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FORMAÇÃO DE PÚBLICO – Inaugurado em 1997, o Theatro XVIII é apontado
como mais que um espaço de apresentações: inovou e criou um movimento
de formação de público ao propor montagens criativas e requintadas em
espetáculos como “Quem Inventou o Amor foi Roberto Carlos”, “Três
Mulheres e Aparecida”, “Brazis”, “Esse Glauber”, “Os Filhos da Filha da
Chiquita Bacana”, e também nos sarais literários, publicações, além de
incentivar a dramaturgia local, como o já citado “A Casa de Minha
Alma”, que teve argumento, roteiro e direção do Sr. Marcio Meirelles, o
pivô da confusão. E o mais engraçado nisso tudo é que o secretário da
Cultura que aparentemente deveria conhecer todos os problemas da classe
artística vem agora em público exigindo prestação de TODAS as contas,
desde nota fiscal da compra de mingau até uma suposta “nota fria” de R$
20.000,00, enquanto a energia elétrica, água, folha de pagamento de
funcionários e prestadores de serviço e até papel higiênico não estão
sendo pagos desde março. O que Meirelles precisa saber é que arrogância
e consciência raramente caminham lado a lado; e que competência deveria
ser inclusa na sua lista de prioridades com urgência.
Em decorrência disso, a direção do teatro enviou um comunicado à
imprensa noticiando o fechamento e explicitando a situação calamitosa
em razão das dívidas. “Livre, como deve ser uma casa de pensamento, o
Theatro XVIII fechará suas portas físicas porque não existe “longa
vida” sem água e luz, e aguarda que a Secretaria de Cultura confirme
sua intenção de manter a sua inteligência democrática funcionando, como
nos últimos dez anos”, diz o texto. E nesta contenda de administração
transparente propagandeada pelo Estado, mas sem a devida transparência
dos atos de um partido que, na voz proeminente do “mão santa” e, na
deixa de ser mais uma organização criminosa de esquerda ou que tem no
seu representante maior o Lula que, agora, consegue até proferir a
palavra “anacrônico”, num misto de Robin Wood às avessas, estadista e
retaliador da direita que coloca no chinelo qualquer rito de ditadura
militar, dos seus porões e líderes, mas que não nós deixa mentir: SE
RENAN CALHEIROS EM ESTADA PATROCINADA PELA ABSTINÊNCIA E CONCHAVOS DO
PT, ENTÃO A CULTURA DEVE SER TRATADA COMO PRODUTO DE QUINTA?
Agora essa má administração, incompetente com é, ingerente do
governo do Estado, pois a Bahia está abandonada e à deriva de
administrações municipal e estadual que são omissas e incompetentes,
além de sitiadas pelo voto de cabresto onde acabaram fechando o Theatro
XVIII num ato de selvageria e de prepotência dita transparente, para
não dizer irresponsável e mercenária e de continuísmo para que o ópio
do povo conceda a sua parte neste latifúndio sitiado de democracia (mas
sem vaias, porque isto é ouvido como ditadura) se faça na sua condução
apolítica e acéfala.
SENSAÇÃO DE ENTERRO – O Teatro XVIII democratizou a ida do público
baiano ao teatro, pela programação, pelo preço e pelas atividades que
desenvolvia. Além dos espetáculos, abrigou aulas de história da Bahia,
saraus e palestras. E agora, isso ficou com uma sensação de enterro no
ar e falo como artista que sou. PARA MIM, O THEATRO XVIII FOI UM GRANDE
FOMENTADOR DA MINHA NECESSIDADE DE CRIAR E TAMBÉM UM ARREBANHADOR DA
CULTURA BAIANA E DA FORMAÇÃO DE PLATÉIA.
A situação é similar em outros teatros que dependem do financiamento
do Estado. Por isso, o desfecho reservado ao Theatro XVIII causa
instabilidade em outros espaços da cidade. No Teatro Gamboa Nova, que
passa por uma reestruturação desde julho e está em busca de apoio, a
notícia foi como um banho de água fria. Durante uma entrevista,
integrantes do projeto Companhia Axé do XVIII, ligado ao teatro,
protestaram contra fechamento da casa. E no meio de toda essa polêmica
o teatro fechou e a cultura parou. É LAMENTÁVEL QUE ESSE TIPO DE COISA
AINDA ACONTEÇA NUM GOVERNO QUE PROPAGANDEIA DE FORMA ESQUIZOFRÊNICA OS
PRATOS LIMPOS, COMO SE CULTURA FOSSE VENDIDA COMO OS BOIS DO RENAN.
Atualmente e stá sendo realizada uma rigorosa auditoria em todos os
projetos apoiados pelo Fundo de Cultura e pelo Fazcultura, explicou o
superintendente de Promoção Cultural da Secretaria, Paulo Henrique de
Almeida, via nota emitida pela assessoria de comunicação. Para a
administração atual, a maior parte dos problemas foi gerada pela falta
de controle anterior e também porque o contrato de manutenção de R$ 310
mil por ano não ter sido renovado pela Secretaria da Cultura.
MUVULCA BAIANA – Aninha Franco (que gentilmente assinou em 2006 o prefácio dos “Contos Perversos”
citado lá no início desse texto) e Rita Assemany (uma atriz maravilhosa
que participou até do filme “Abril Despedaçado” ao lado de Rodrigo
Santoro), coordenadoras do Teatro XVIII, falaram no dia 26/09 num
programa na rádio Metrópole FM sobre o fechamento do espaço cultural.
Aninha disse ao ser questionada sobre o porquê de ela ainda está na
capital baiana que escolheu ficar para brigar pela boa cultura. “Minha
idoneidade não tem suspeita. Somos muito melhores como artista do que
como burocratas! O XVIII é um lugar perigoso porque lá se pensa. Nós
precisamos mostrar que a Bahia não é um balneário que abre no verão e
fecha no inverno”, complementou. E, no meio daquele debate, também
expôs a minha revolta na rádio contra o Estado e a favor do XVIII:
“Essa equipe desse governo Wagner ainda espera completar 500 anos pra
fazer alguma coisa relevante. A nossa cultura está sendo tratada como
produto de última e esses demagogos ainda têm a coragem de dizer que
isso tudo é transparente e que vão dá um banho de folha no Pelourinho.
Hoje acredito que a arte está vulnerável porque se faz inativa por
estar sedentária nas prateleiras que exalam somente cheiro de revistas
que disseminam apenas fofocas . É por isso que a Alice (ou a Fátima***)
prefere viver no País das Maravilhas. E o Lewis Carroll deve está lá se
revirando no tumulo!”, disse participando do programa por e-mail.
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A atriz Rita Assemany em cena do espetáculo “A Casa da Minha Alma”. |
JEITO MERCENÁRIO – Após as declarações de Aninha e Rita na rádio,
outras instituições e produtores também se manifestaram contra a
Secretaria do novo Governo. A Fundação Casa de Jorge Amado também é uma
das instituições que vem sendo prejudicada com o novo governo,
interrompendo projetos e restringindo horário de funcionamento da Casa.
Mas o PT e o seu governo têm um jeito mercenário de ser porque uma vez
no poder concede a retaliação. A voracidade de um partido que se nutre
de revanchismo, de demagogia, de ingerência e, sobretudo, de
performances de um presidente marketeiro para o povo vê. Um partido de
muito pouco de negociação, mas de negociatas para uma nação que está
acostumada a ser tratada de maneira estúpida e zoomorfizada.
E o Sr. Márcio Meireles, um diretor artístico local frustrado e a
sua direção frustrada da pasta da cultura estadual, por não fazer
absolutamente nada de convincente foi nomeado com seu discurso piegas e
politicamente correto para patrocinar cultura de raiz e para minorias,
resgatando uma baianidade perdida (com ele) e de fachadas para esconder
o que o governo não faz, aliás, faz sim, fecha um teatro no Pelourinho
para um Pelourinho fechado por ingerência cheio de pedintes, de
mendigos e prostitutas, já que este governo não atua onde o governo
passado atuava (mesmo não sendo também nenhum pouco honesto), ou seja,
vamos “dar” a Bahia para um paulistano administrar, para que ele seja
articulador desta máfia encabeçada pelo presidente da república e da
retórica para que a Bahia mude, como num mérito e destino de cidade
fantasma, mas para pior.
DESCONCENTRAR OS INVESTIMENTOS – O trabalho entre as instituições
culturais e o Estado deveria ser visto como uma parceria e não como um
favor. Incomoda muito essa imagem de que os artistas precisem de esmola
pra sobreviver. Não é isso. Os artistas estão dando um serviço e estão
recebendo uma troca por causa desse serviço. Então a medida que for
necessitando de mais recurso para que o serviço seja melhor, isso devia
ser levado em conta. E não foi surpresa quando assisti alguns
produtores cuspindo e exigindo respeito pelos seus anos e anos de
trabalho em prol da cultura baiana, leia-se: exigindo as maiores verbas
para as suas produções e não para artistas “recém saídos das fraudas”.
Em suma: tudo são demagogia e interesses particulares.
Na teoria, a nova política de cultura do Estado tem como objetivo
desconcentrar os investimentos em cultura para os 417 municípios do
Estado. Segundo a Secretaria de Cultura, 80% destes recursos ficavam
concentrados em Salvador e Região Metropolitana, quando 80% da
população encontram-se no interior. Mas, no decorrer desse processo,
que houvesse por parte do governo uma maior abertura para que essas
coisas fossem conversadas. Enquanto o
Márcio Meireles, na incompetência de fazer alguma coisa desfaz na sua
dor de moral falida e de discurso, a Bahia vai bem e sitiada por UM
PARTIDO QUE É INDECENTE E INCOMPETENTE E QUE SE ELEGEU COM UM MÉRITO
MUITO PARTICULAR E COM UM DISCURSO POPULISTA, DEMAGOGO. E por ser
falso democrata, Lula se auto-nomeia, tal qual um Getúlio às avessas,
além de deficiente, pai dos pobres.
É mais um problema para o Centro Histórico de Salvador, que vem
sofrendo com a queda de movimento. Nas ruas e ladeiras do Pelourinho,
um dos principais cartões postais da capital baiana, poucos turistas
neste fim de semana. Bares e restaurantes quase vazios; casarões com
portas fechadas e baianos envergonhados. Os lojistas registraram queda
nas vendas e os visitantes que vieram de longe estranharam o pouco
movimento. A situação está péssima. O Pelourinho está abandonado.
Situação que segundo os comerciantes já dura muitos meses e pode ser
agravada com o fechamento do Teatro XVIII. Então, o que ainda nos resta
nesse latifúndio? Não tenho idéia... pois a minha capacidade de sonhar
se esgotou junto com a minha possibilidade de arriscar vôos mais altos.
Nossa cultura foi dizimada junto com as minhas certezas de que um dia
poderia ser capaz de também fazer arte. E não me venham esses puritanos
filhos da p... me acusarem de pessimismo. Talvez o preço de uma bala
para estourar meus (aliás, os seus) miolos seja muito mais cara do que
o valor da própria vida nesse país oligárquico de merda.
* Anna Carvalho é escritora, professora, articulista do portal Literatura Clandestina e co-autora de Elenilson Nascimento nas obras “Diálogos Inesperados Sobre Dificuldades Domadas” (2005) e “Clandestinos” (na gaveta). Contato:
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** Contos Perversos – antologia com vários autores organizada por Elenilson Nascimento, Rio de Janeiro, 2006, CBJE.
*** Fátima Mendonça é esposa do governador da Bahia, Jacques Wagner.
foto de Rita Assemany: Sora Maia; de Aninha Franco com Marcio Meirelles: divulgação.
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